Como todo moderno, eu odeio Natal*
Mas já gostei, nessa época. Foto do batizado do meu irmão (no colo de vovó, elegante em vermelho): eu sou a coisinha fofa com cara bored no colo de mamã enquanto pops faz cosplay de Magnum depois da fartura. Infelizmente, a ala direita já se foi (vovô, vovó e bisa), e o senhor vovô malandrão da ala esquerda deixa saudades em vida.Eu detesto Natal. Acho uma data triste pra cacete. Não gosto, mesmo. E a parentada não ajuda, nunca tem presente bom. Pra piorar, minha cidade natal é quente feito a sede do inferno, os tios adoram fazer picuinhas sobre a festa, só me resta 37,5% dos meus avós (não tenho meus avós paternos, meu avô materno está em fase terminal de Alzheimer e minha avó materna vai bem, obrigada... mas triste por ver meu avô indo aos pouquinhos) e a grande maioria dos meus amigos não está mais por lá. Os que estão, casados(as) e/ou com filhos e/ou encostados(as) morando com os pais e vivendo uma vidinha mais ou menos me entediam mais do que as canções natalinas.
E é data pra passar com família lato sensu , né? E eu só quero a família stricto sensu: pai, mãe, irmão e Oscar Wilde (antipático, mas irresistível). Namorido fica com a família, ano-novo passamos juntos (e ano-novo eu adoro, bem mais fácil ter que me agüentar nessa data). Só estou me preparando psicologicamente pra não ter nenhum quebra-pau com a minha mãe, que faz questão de que eu sempre vá visitar meu avô. E eu não gosto. Jogue pedra quem quiser, mas não gosto de ver o cara que eu cresci assistindo verter taças e taças de vinho enquanto contava piadas em espanhol reduzido a 40 kgs de pele, osso e escaras. Ás vezes até me parece que ela faz isso pra me punir, pra me lembrar que eu saí de casa e abri mão dos últimos anos com ele, logo eu, que sempre fui a preferida, a primogênita. Ás vezes parece que ela quer acreditar que ainda há consciência ali. Ninguém deixa Seu João descansar, ficam todos o velando em vida. Eu morro de ódio. E pena.
Lembrei: meu avô, antes de perder a fala, só me chamava de “doutora”. Eu ainda estava na faculdade. Eu sempre respondia só seria doutora com a OAB na mão (advogados, esses seres tão humildes). Quando me formei, Seu João já não falava, nem andava. Qualquer grunhido ou olhar era interpretado da forma que o interlocutor quisesse. Acho que uma das maiores desgraças de se chegar a esse estado é ter as suas pessoas te tratando como um bebê. Logo você, que sempre cuidou delas. Eu ficava puta e gritava que ele não era criança, porra, que era pra falar com ele como sempre falaram. Em vão.
Então eu passei na OAB. Recebi a notícia, aquela alegria, todo mundo pra casa dos meus avós. “Vá contar pro seu avô”. Eu fui. Peguei aquela mãozona branca, forte ainda, olhei aqueles olhões de cachorro (castanho-avermelhados: incrível a cor dos olhos do meu avô, mamãe é a única herdeira dessa graça; eu fiquei com as azeitonas verdes de vovó) e falei: “Agora sim, Seu João, pode me chamar de doutora!”.
E ele quase esmagou minha mão, as veias do pescoço pularam, e uma lágrima grossa rolou pelo rosto dele. Aquela lágrima de parabéns, de abraço, de beijo, de frustração de quem não pode falar nem fazer o que quer. Eu caí sentada na cadeira ao lado da cama, estatelada, e lhe pedi desculpas. Beijei a mão dele e fui pra casa, chorei na cama que é lugar quente.
Natal? Pra mim, acabou faz tempo. Comemore quem quiser, eu durmo logo depois de escovar os dentes, como em qualquer outro dia.
*Contém ironia. Óbvio.




