orkut
Twitter
Flickr
A penny for my thoughts
Adote um Gatinho
Ao Mirante, Nelson!
Até aqui tudo bem
Autor Desconhecido
Beijomeliga!
Bico de Pena
Casa da Gabi
Cocadaboa
Como faz?
Devaneios S/A
É bom pra quem gosta
Gatoca
I misbehave
Imprensa Marrom
Lide Temerária
Lixomania
Mão Feita
Masili
Pergunte ao Pixel
Reinaldo Azevedo
Revista Errata
Rosa e Maquiada
Rosa e Radical
Scarlet Letters
Surtei
Technicolor Kitchen
Tudo Palhaço
Uma dama não comenta
Vende na farmácia?
Vida Besta
Vida de recém-casada
Vivo Andando
Woman of Affairs
Xianey








Terça-feira, Abril 14, 2009

Vovó Maria

Cena 1:

Meu tio R., popularmente conhecido como Tio Bé, célebre por subir no telhado e fazer xixi nos irmãos mais velhos quando eles estavam namorando no portão, quebra um “quadrado” da vidraça da cozinha (vidraça daquelas antigas, grandonas, cheias de quadrados, cada um de uma cor diferente).

Cena 2:

Meu avô, linha ultradurésima, senta a porrada no infante. Digo, quebra o moleque mesmo. Meu avô se orgulhava em dizer que batia “pra derrubar”. Reza a lenda que meu pai e um outro tio meu apanharam tanto em uma das vezes que chegaram a ficar inconscientes.

Cena 3:

Minha avó fica sabendo o que aconteceu por um dos filhos (meu pai, talvez). Vai para a cozinha, fica ao lado da tal vidraça e chama meu avô.

Cena 4:

Meu avô entra na cozinha, perguntando o que houve. Minha avó pega uma vassoura e, com o cabo, estoura um por um dos quadrados restantes na tal vidraça. Terminado o serviço, pergunta ao meu avô:

- E agora, seu filho da puta, o que você vai fazer?

Meu avô abaixa a cabeça, mudo, e sai da cozinha. No dia seguinte, chama o vidraceiro pra consertar o estrago.

*****

Viveram muitos anos juntos. Não chegaram a fazer 50 anos de casados, infelizmente. Minha avó, meu role-model*, morreu de câncer há 13 anos. Meu avô não quis ir ao enterro.

Ele morreu três meses depois, de ataque cardíaco. Na semana anterior, tinha dito que minha avó tinha vindo chamá-lo.

Meu pai diz que meu avô nunca amou nada, nem ninguém. Nem os filhos.
Só amava Dona Maria. Minha avó.

*Criou superbem os 6 filhos, era professora de português na rede pública e fazia faculdade de Pedagogia à noite. Cantava como soprano. Tocava piano. Falava francês, espanhol e inglês. E era conhecida na cidade, quando moça, como “Maria, a Bonita”. Pioneira da tevê interativa: sentava bem perto do aparelho (era praticamente surda de um ouvido) na hora das novelas e discutia com os personagens. “Lá vem o filho da puta!”, gritava quando aparecia o vilão. “Mas é uma tonta mesmo...” quando a mocinha caía em algum golpe. E a gente se matava de rir.
Eu morro de saudades dela. Queria tanto saber o que ela acharia de mim, hoje. Do que me tornei. Não consigo pensar em opinião mais importante pra mim, no momento.


Pretendo fazer um update desse post com uma foto dela. Uma bem linda, como ela.